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Peças de vestuário feitas em cerâmica compõem a exposição "Varal ao Vento" no TJA

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A exposição “Varal ao vento” foi aberta no último dia 31 de janeiro, no jardim do Theatro José de Alencar, reunindo peças em cerâmica do artista plástico Bosco Lisboa, com curadoria de Dodora Guimarães. A iniciativa faz parte de um projeto de mesmo nome que prevê levar a exposição às praças públicas de maior movimentação de Fortaleza.

A mostra permanece em cartaz no TJA até dia 28 de fevereiro (domingueira), seguindo para as praças em exposições de uma semana de duração, perfazendo um total de 10 mostras em semanas alternadas por diversas áreas da cidade.

O escultor Bosco Lisboa guarda em suas memórias de barro reminiscências incomuns. Relembra que quando menino, vez por outra, na loja de Eletrônica Padre Cícero, de seu pai, em Juazeiro do Norte/CE, o trivial bordão do conserta-se rádio, vitrola, televisor, geladeira, era substituído pela epifania lamuriante de Frei Damião e de seus seguidores. Adentrando no coração devoto dos proprietários e dos demais presentes a voz sussurrante do famoso peregrino do sertão reverberava nas prateleiras apinhadas de objetos à espera de consertos. Aos olhos grelados do meninote, estas aparições “mágicas” congelavam tudo à volta. Na sua mente imaginativa aquelas constelações terrenas, como espectros de pó ganhavam movimento e voavam janelas afora, como no filmes de animação.

Não eram os benditos ou as preces que atingiam os ouvidos de Bosco Lisboa. Mas o silêncio daqueles objetos inertes, com suas formas provocativas, sedutoras. O seu interesse, portanto, era dar velocidade àquele filme cujo enredo o emaranhava todo. Sonhava dominando o tempo, e no mesmo sonho soprava o movimento. Quando seus pais abdicaram do comércio para seguir a rota missionária de Frei Damião, coube a Bosco a herança da oficina eletrônica, logo transformada em atelier de arte. O antigo ambiente, com seus objetos e ferramentas migraram para o pensamento do artista que mesclou à sua existência o barro da criação.

Da arte santeira do início, nos moldes da repetição romeira, partiu para experiências mais radicais no convívio com os oleiros do sítio Touro e, posteriormente com os mestres artesãos do bairro Tiradentes, reduto tradicional da cerâmica juazeirense. Deixando-se levar pela maciez, flexibilidade e temperatura do material que tinha às mãos, viu que o seu universo podia se expandir tanto quanto o seu pensamento. Tinha asas para sua imaginação. Embarcou no seu tempo.

Buscando a si, no barreiro do seu interior, Bosco Lisboa encontrou as pegadas que o levariam às paredes manchadas pelo dias e às nuvens “levianas” que por algum tempo ocuparam seu campo criativo, para, finalmente sua memória explodir de vez, devolvendo ao artista suas lembranças da infância, quando a realidade era sua fonte de encantamento. Observando com a mesma avidez de menino o ritmo de um relógio parado, ou desconcertando-se com o movimento da roda na sua mais completa imobilidade, o artista deslumbra-se com o mundo à sua volta.

Girando em torno do que está à sua frente, sem pressa, quase em câmera lenta o nosso escultor nos relembra com ironia que se o tempo não pára, pra que colocar ponteiros num relógio que é feito com o mesmo pó do tempo? A realidade brutal de seus objetos choca não só pela verossimilhança, mas pelo sentido que ganham na trivialidade de suas funções.

Ao longo de sua carreira o artista retratou e dimensionou em suas peças cenas do cotidiano popular, através de seus utensílios, suas vestimentas e seus costumes. Obras estas que geram um elo entre espectador e obra, onde o auto-reconhecimento, faz com que a obra interaja diretamente com quem a visualiza, trazendo a tona experiências e momentos vividos, gerando um “déjà vu” de emoções.

Desta maneira então buscamos levar o povo ao povo através da arte, permitindo assim que a população fortalezense se auto-reconheça e se descubra na obra do ceramista Bosco Lisboa.

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